Histórias bíblicas de Natal têm viés político, diz pesquisa

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Evangelhos comparariam menino Jesus a imperadores romanos. Intenção seria contrapor fé cristã a opressão gerada por Roma.

O jeito moderno de representar as histórias bíblicas do nascimento de Jesus normalmente as transforma em tocantes contos para crianças, mas é bastante possível que os primeiros cristãos as lessem como manifestos políticos, além de espirituais. Essa é a tese de um livro que acaba de chegar ao Brasil, escrito por dois especialistas nas origens do cristianismo, o americano Marcus Borg, da Universidade do Oregon (EUA), e o irlandês John Dominic Crossan, da Universidade DePaul (também nos Estados Unidos).

O livro “O primeiro Natal – o que podemos aprender com o nascimento de Jesus” deixa em segundo plano as questões sobre os detalhes históricos da vinda de Cristo ao mundo. A intenção dos pesquisadores é descobrir o que os evangelistas Mateus e Lucas, autores das duas narrativas sobre a natividade (o nascimento de Jesus) que foram preservadas na Bíblia cristã, queriam expressar com seus textos. Para eles, o tema comum por trás das narrativas é a rejeição do projeto imperial de Roma, que dominava um quarto da população do planeta na época, em favor de um projeto alternativo para a humanidade, representado por Jesus e seu evangelho.

“As histórias do primeiro Natal são, em geral, anti-imperiais. Em nosso contexto, isso significa afirmar, seguindo as histórias da natividade, que Jesus é o Filho de Deus (e o imperador não é), que Jesus é o Salvador do mundo (e o imperador não é), que Jesus é o Senhor (e o imperador não é), que Jesus é o caminho para a paz (e o imperador não é)”, escrevem os autores.

Em resumo, dizem Borg e Crossan, as histórias da natividade provavelmente foram escritas para ser lidas como “histórias subversivas”, ou seja, cuja intenção era subverter as visões sobre a fé e a política que eram dominantes no mundo romano no século I d.C., mas que os cristãos queriam transformar. Com esse objetivo, os evangelistas parecem ter voltado o vocabulário e a retórica de seus opressores contra eles.

O pano de fundo para esse golpe de mestre cristão é, avaliam os pesquisadores, a chamada teologia imperial romana, que ganhou força com a chegada ao poder de Augusto, o primeiro imperador de Roma, que governou de 27 a.C. a 14 d.C. Como forma de reforçar o domínio romano sobre as vastas regiões do Império, Augusto e seus propagandistas (como o poeta Virgílio, autor do épico “A Eneida”) incentivaram a transformação do governante numa figura divina, cujo mando firme teria trazido a paz a todos os recantos do mundo (a chamada Pax Romana).

A propaganda foi especialmente forte na parte oriental do Império Romano, onde já havia uma tradição de divinizar os governantes. Altares e templos foram construídos em honra do imperador; começaram a circular histórias de que sua mãe tinha sido engravidada por Apolo (deus greco-romano do Sol, da luz e da razão) na forma de uma serpente. Além disso, Augusto tinha sido adotado por Júlio César, outro governante romano que foi oficialmente declarado um deus, embora só depois da morte.

Em suas proclamações políticas de cunho quase religioso, Augusto anunciava a “boa nova” da paz trazida por suas vitórias militares, usando o mesmo verbo grego que daria origem às palavras “evangelho” e “evangelizar” em português. Esse seria o primeiro exemplo claro de “empréstimo” por parte dos evangelistas, como forma de ressaltar que “a boa nova da paz” estava sendo trazida por Jesus e seus seguidores, e não pelo Império. Esse seria o significado do anúncio de “paz na terra” feito pelos anjos aos pastores de Belém no Evangelho de Lucas, argumentam Borg e Crossan.

Resistência


A origem judaica dos primeiros cristãos significava que eles jamais poderiam aceitar passivamente a transformação dos imperadores romanos em deuses (Augusto foi só o primeiro; seus seguidores, inicialmente membros de sua família, logo copiaram o exemplo). Além disso, eles viam Jesus como o cumprimento das promessas messiânicas feitas pelos profetas do Antigo Testamento. Com isso, a fé em Cristo também teria sido uma forma de afirmar a resistência pacífica contra a ideologia imperial romana.

Um exemplo disso é a perseguição contra o menino Jesus encabeçada pelo rei Herodes no Evangelho de Mateus. Esse evangelista aparentemente escreveu sua narrativa para cristãos de origem judaica e retrata Jesus como o novo Moisés, que levaria à perfeição a Lei sagrada do judaísmo. Daí a história da matança dos bebês de Belém, ordenada por Herodes para tentar eliminar Cristo, e a fuga da Sagrada Família para o Egito, seguida de seu retorno após a morte de Herodes.

Os pesquisadores argumentam que essa passagem não visa a descrever um evento histórico, mas sim ressaltar que Herodes, o rei apoiado pelos romanos, é como o faraó que ordenou a matança das crianças israelitas, da qual o pequeno Moisés escapou, segundo o livro bíblico do Êxodo. Já a Sagrada Família simbolizaria todo o povo de Israel, que precisou se fixar no Egito e depois voltou à Terra Prometida, desta vez trazendo o novo Moisés, Jesus.

Da mesma forma, o Evangelho de Lucas aplica ao menino Jesus todos os adjetivos e títulos que a propaganda imperial atribui a Augusto e a seus sucessores, como “Salvador”, “Senhor”, e “Filho de Deus”, mas com uma diferença crucial. Lucas dá ênfase à mensagem do nascimento de Jesus transformando a vida dos oprimidos e marginalizados, como as mulheres (como Maria e Isabel, mãe de João Batista, que são as principais personagens de sua narrativa) e os pastores que testemunham o bebê divino na manjedoura.

Para Borg e Crossan, a mensagem de Lucas é clara: o verdadeiro Filho de Deus não iria trazer a paz ao mundo com exércitos e construções grandiosas, como Augusto, mas por meio da justiça e do resgate dos excluídos. É nesse nível que as histórias do primeiro Natal ainda são relevantes para cristãos e não-cristãos, afirmam eles.

Fonte:

Igreja cristã passou por várias divisões através da história

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

DA BBC BRASIL


Os relatos bíblicos sobre a vida de Jesus Cristo foram fortemente influenciados pelas correntes teológicas da igreja cristã primitiva.

Não existe na Bíblia histórias sobre a vida de Cristo entre 12 e 30 anos. De acordo com os relatos bíblicos, a mãe de Jesus – Maria - era virgem quando engravidou.

E sua concepção teria sido uma intervenção do Espírito Santo que encontrou nela uma jovem pura e digna de trazer o salvador ao mundo.

Para os cristãos, Jesus é o filho de Deus que veio à Terra em forma de homem para restaurar o relacionamento do ser humano com Deus.

Ressurreição

Segundo a Bíblia, Cristo morreu após ser crucificado, mas ressuscitou ao terceiro dia em Jerusalém.

Os cristãos acreditam que, durante sua vida, ele mostrou ao mundo como se reconciliar com Deus.

Acredita-se ainda que se deve viver de acordo com o exemplo de Jesus Cristo: amar Deus, amar o próximo como a si mesmo e repartir a mensagem de Cristo com os outros.

No cristianismo, acredita-se que ao morrer na cruz, Jesus trouxe o perdão de Deus a todo o que nele crê e ainda construiu uma ponte entre Deus e o ser humano.

Essa ponte havia sido rompida com o advento do pecado de Adão e Eva, no início do mundo, que separou o ser humano de Deus.

Salvação

O cristão bíblico acredita em somente uma vida aqui na terra e outra que se chama vida eterna, após a morte.

Caso tenha vivido de acordo com a vontade de Deus, o ser humano recebe a morada eterna no céu como recompensa, mas existe também a possibilidade de condenação a uma vida eterna no inferno em caso de desobediência à vontade de Deus.

Cristãos evangélicos acreditam que a escolha entre o céu ou o inferno é feita ainda em vida: quem aceita Jesus como Salvador vai para o céu, quem o rejeita não.

A figura de purgatório é inexistente para evangélicos, mas persiste em variadas correntes da igreja católica apostólica romana.

Algumas correntes teológicas discutem sobre a existência de céu e inferno. Há diferenças também sobre o destino da alma.

Para alguns, praticar boas obras basta; para outros, só Jesus salva numa salvação gratuita que vem de Deus, “não vem de obras para que ninguém se glorie”, diz o apóstolo Paulo.

Os principais ramos do cristianismo

O grande Cisma entre aos católicos do Ocidente e os do Oriente, conhecidos como ortodoxos, acontece em 1054.

O racha com a igreja do Ocidente aconteceu por causa de um conflito sobre a autoridade suprema do papa.

Também havia divisões sobre uma cláusula presente no credo católico que estabelece que o Espírito Santo vem do filho de Deus como também de Deus.

No século 16, é a vez da Reforma que cria a igreja protestante liderada pelo monge alemão Martinho Lutero.

Estas foram as maiores divisões dentro do segmento judaico-cristão.

Mas nem tudo é marcado por diferenças. Tanto a igreja católica como a ortodoxa, por exemplo, reconhecem os sete sacramentos: batismo (visto como mandamento de Jesus, é aceito na infância ou vida adulta, simboliza morte para uma vida de pecado), confirmação, casamento, ordenação, penitência (sacramento da reconciliação), extrema unção e a missa.

Igrejas do Oriente

Este grupo se refere a igrejas ortodoxas e os que partilham das éticas cultural e espiritual que se originam no Império Bizantino.

Há mais de 214 milhões de cristãos ortodoxos atualmente. Quatro patriarcados desfrutam de autoridade e status especial: Alexandria, Antioquia, Jerusalém e Constantinopla.

Estas igrejas se localizam no leste da Europa, em países eslavos e no leste do Mediterrâneo. A veneração de ícones é parte importante da adoração em particular e em público de ortodoxos.

Monastérios também têm função fundamental na história da igreja. O monte Athos, na Grécia, é o centro monástico desde o século 10.

A Igreja Católica Apostólica Romana

Com sede no Vaticano, a Igreja Católica Apostólica Romana se mantém como a maior das denominações cristãs, com aproximadamente 1 bilhão de fiéis.

Esse grupo tem origem na igreja ocidental da Idade Média. Os católicos crêem na primazia e autoridade do papa, que é tradicionalmente considerado representante de Cristo na Terra e sucessor de Pedro, um dos discípulos de Jesus e que se tornou o primeiro bispo de Roma.

Em matéria de fé e moral católicas, o que o papa diz é interpretado como obrigatório e correto para todos os seguidores. Mas isso é passível de muito debate entre outros cristãos não-católicos romanos.

A primazia da Igreja Católica, no entanto, foi alvo de reflexões no século 20 com a introdução do segundo Concílio do Vaticano (1962-1965), que elaborou grandes reformas e uma relação mais aberta com igrejas não-católicas.

Igrejas Protestantes

O grupo dos protestantes surgiu de um protesto contra a Igreja Católica no século 16 e congrega aproximadamente 500 milhões de pessoas.

As questões polêmicas na reforma foram o questionamento da autoridade do papa e sua infabilidade, a autoridade e acesso às escrituras e um significado preciso da eucaristia (o ritual da distribuição do pão e do vinho com estes elementos representando o sangue e o corpo de Cristo).

O ritual também é conhecido como Santa Ceia, em alusão à ceia tomada com os discípulos na véspera da crucificação de Jesus. A eucaristia é uma palavra grega que significa agradecimento e celebração.

A interpretação da eucaristia ou ceia, ou comunhão, é diferente em várias igrejas. Os católicos acreditam que o pão e o vinho são realmente o corpo e o sangue de Cristo em substância.

Para a maioria dos protestantes, trata-se apenas de um simbolismo, uma metáfora. A igreja protestante rejeita a supremacia do papa e de qualquer figura única representante de Cristo na terra.

Os protestantes enfatizam a autoridade da Bíblia e as tradições da igreja primitiva. Segundo protestantes, o crente é salvo pela graça de Deus.

Todos os que acreditam em Deus podem se tornar sacerdotes deste mesmo Deus.

Há quatro correntes principais da Igreja Protestante:

Anglicana ou Episcopal, Luterana, Renovada ou Presbiteriana e as igrejas livres, assim chamadas porque não são associadas aos Estados.

No Brasil, alguns exemplos de igrejas livres são: a igreja Batista, Metodista, Assembléia de Deus, Congregacional e Presbiteriana.

Na segunda metade do século 20, o Brasil experimentou o surgimento de igrejas neo-pentecostais, como Universal do Reino de Deus, Sara Nossa Terra, Comunidades Evangélicas, Igreja da Graça etc.

Igreja: casa de adoração

O lugar de adoração e louvor dos cristãos é chamado de igreja ou templo. Geralmente são construções em forma de cruz como altar voltado para o leste, onde nasce o sol.

A palavra igreja também se refere a um grupo de cristãos e denominações religiosas como a Igreja Anglicana, Luterana, Batista, Católica, Ortodoxa ou Metodista.

Para os cristãos, a Bíblia é o livro sagrado. Ela está dividida entre Velho Testamento, que compreende a bíblia hebraica, e o Novo Testamento, que traz relatos da vida de Jesus Cristo nos quatro primeiros livros, conhecidos como os Evangelhos, cartas escritas aos primeiros cristãos, e o Apocalipse, uma profecia sobre o fim do mundo.

Feriados da Igreja

A quaresma começa na quarta-feira de cinza quando algumas igrejas fazem missas especiais. Nessa data comemoram-se os 40 dias que Jesus passou jejuando no deserto.

Católicos praticantes usam a quaresma como um período de penitência.

Para alguns, a data está errada, pois a quarta-feira de cinzas acontece exatamente 46 dias antes da páscoa, não 40, para isso não se contam os seis domingos durante a quaresma.

Já a igreja ortodoxa comemora a quaresma na segunda-feira da nona semana antes da Páscoa e termina a quaresma na sexta-feira antes da semana santa. A Igreja Ortodoxa não observa a quarta-feira de cinzas.

Semana Santa

É comemorada na semana antes da Páscoa e começa no Domingo de Ramos ou Domingo da Paixão, é o último domingo antes da Páscoa.

Esse dia está ligado à entrada triunfal de Jesus em Jerusalém antes de ser crucificado e morto. Em algumas igrejas, é marcado por uma procissão de fiéis carregando folhas de palmeiras.

Sexta-feira santa

É a sexta-feira antes da páscoa e comemora a crucificação de Jesus. É um dos dias mais solenes para os cristãos e é marcado por cultos e orações especiais.

O Dia da Páscoa

É o dia mais importante do feriado e talvez o mais alegre, porque marca a ressureição de Cristo. A Páscoa não ocorre sempre na mesma época. É o domingo que se segue à data no calendário eclesiástico da Lua cheia que acontece no dia 21 de março ou depois.

A Lua cheia no calendário eclesiástico não ocorre sempre na mesma data da Lua cheia no céu, o cálculo pode ser bastante confuso.

Ascensão

Ela ocorre na quinta-feira, no quarto dia depois da páscoa e marca o ida de Jesus para o céu após ter passado um tempo na Terra.

Pentecostes

É celebrado no sétimo dia depois da páscoa. A data marca a descida do Espírito Santo sobre os cristãos e o nascimento da igreja cristã. É um festival celebrado com mais frequência por igrejas carismáticas.


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Idéia do horário de verão surgiu antes mesmo da luz elétrica

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Ben Franklin foi primeiro a ver economia em prolongar uso da luz do dia.
No Brasil, horário de verão começa à zero hora deste domingo (19).

Em 1784, quando ainda não existia luz elétrica, o jornalista e inventor Benjamin Franklin viu que gastava muitas velas quando trabalhava de noite. Acordar mais cedo passou a ser a sua solução de economia, e ele chegou a sugerir que as praças tivessem "barulhos de canhões para fazer os preguiçosos levantarem mais cedo todos os dias". Para alívio dos vizinhos, a idéia de Franklin não foi implementada, mas ela foi o embrião do que hoje chamamos de horário de verão.

A idéia de ajustar os relógios veio um pouco mais tarde, em 1905, com o construtor William Willett. Ele lutou anos para conseguir introduzir o horário de verão na Inglaterra, mas morreu sem ver sua idéia funcionar.

Foi apenas na Primeira Guerra Mundial, em 1914, que o horário de verão foi introduzido pela primeira vez, na Alemanha. Rapidamente, outros países também adotaram a técnica, inclusive os EUA. No pós-guerra, no entanto, os fazendeiros americanos conseguiram derrubar a medida, que também caiu em vários outros países.

A guerra mundial voltou, em 1939, e novamente o horário de verão foi introduzido em países aliados e do eixo. Nos anos 1960, a lei americana determinava que cada estado escolher se queria ou não participar da mudança, gerando uma grande confusão de horários. Em uma linha de ônibus da Virgínia Ocidental, por exemplo, os passageiros tinham que mudar seus relógios sete vezes em 56,3 km. A história é contada no livro "Seize the Daylight: The Curious and Contentious Story of Daylight Saving Time", do especialista em horário de verão e P.h.d. pelo Instituto Tecnológico de Massachusetts David Prerau

Outros benefícios

Em entrevista ao G1, por telefone, Prerau disse que a economia de energia não é o único benefício da implantação do horário de verão. Segundo ele, muitos países adotam a medida por conta da diminuição da criminalidade no horário de saída do trabalho e também pelo aumento do lazer da população, que pode curtir o fim de tarde por mais tempo. "Hoje mais de 70 países adotam a técnica e na maioria deles a economia de energia é significativa."

'Loucura anual'

Mas há quem diga que a contenção de energia não é o verdadeiro motivo da implantação do horário de verão. Michael Downing, professor da Universidade de Tufts, em Boston, e autor de "Spring Forward: The Annual Madness of Daylight Saving Time" (A primavera avançada: a loucura anual do horário de verão"), disse que a real intenção do adiantamento dos horários é o lobby das companhias de petróleo e das lojas de shopping.

"Eles lucram mais com o prolongamento do dia, já que como saem mais cedo do trabalho, as pessoas vão às compras. E não vão andando. Elas pegam carros". Segundo Downing, o horário de verão também contribui para o aquecimento global, já que aumenta o uso do ar-condicionado. "Acho que é uma medida cínica que evita o investimento em uma política eficaz de energia nos países."

Retrato mostra Benjamin Franklin em 1785 (Foto: Reprodução/Wikimedia Commons)

Fonte:

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